Percurso do Dão

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Penaverde. No centro de Penaverde damos de caras com o "pinoco"Um invulgar pelourinho confirma a importância do lugar, desde tempos ancestrais. É o pelourinho mais antigo do concelho. Aliais D. Sancho concedeu-lhe foral em 1240 e Penaverde foi sede de concelho até à reforma administrativa de 1836, compreendendo as freguesias de Dornelas, Queriz, Forninhos e Penaverde. Em 1278 é D. Dínis quem confirma o foral, a pedido do próprio concelho. E em 17 de Julho de 1514, D. Manuel concedeu-lhe um novo foral. Depois de extinto o concelho, a freguesia foi anexada ao de Trancoso até 1840 e, daí em diante, ao de Aguiar da Beira. Defronte do pelourinho, onde foram edificados o chafariz e os tanques, era a casa da Câmara e do outro lado da rua, adossada à casa Paroquial ainda podemos admirar uma espécie de torre quadrancular, feita de pedra miúda, que serviu de aljube eclesiástico, e é conhecida por Sala da Torrinha.

Voltamos a descer a rua para seguirmos pela esquerda. Há na esquina uma exemplar construção, do início uma exemplar construção, do início de seiscentos, que bem poderia servir de casa da Câmara. Aquela janela, virada para o largo, terá certamente testemunhado os acontecimentos mais marcantes da vida deste povo, alegrias e tristezas, momentos de júbilo e de dor, afinal a contradição dos tempos de quem recebe forais e deixa de ser concelho. Quantas algazarra não se ouviu por toda aquela rua, ladeada de ricas construções medievais, até o condenado chegar ao Alto da Forca, onde a sentença seria executada. Do outro lado o mesmo esplendor numa outra casa da mesma época. Se entrarmos o portão e espreitarmos a Quinta e o edifício descobriremos, com facilidade, vários símbolos de outras eras, por debaixo das heras que os cobrem.

A rua é a Direita e é por ela que seguimos adiante até Moreira. Ao longo da estreita estrada sobressaem as leiras cultivada e os prados verdes. O casario emerge escurecido de anos, branqueia-se a roupa nos tanques públicos, virando costas às cruzes da Via-Sacra, expostas nas paredes da capela de São Domingos. Continuando o caminho, atravessamos para lá a EN 330 e, na estrada para Carapito, havemos d encontrar a Urgueira – é nome de urze, que abunda por aqui. O seu eslalejar animava as fogueiras nas noites frias de Inverno, desde as origens da povoação. No início era uma Quinta, a Quinta da Fonte da Urgueira que, em 1527, não tinha mais que dois moradores.Abrigada pelos pinhais viu-se crescer e no seu Largo principal se ergueu o Cruzeiro, a capela de Santo António e o tanque. O forno do povo revela o sentido da vida da população, vida comunitária sustentada em laços familiares. O mesmo que encontramos logo ali, a dois passos, nos Feitais.

Também este pequeno aglomerado teve origem numa Quinta que se alargou sobre o vale. Junto da ribeira rodopiaram as mós, amontoou-se no soalho a farinha que o forno do povo havia de cozer. No núcleo mais antigo, percorrido a pé, descortinamos toda a ruralidade do lugar. As alminhas são do século passado, mas a capelinha é muito recente. Pomos então os pés a caminho, ao encontro da Estrada Nacional, para logo entrarmos no Mosteiro. Entramos e damos de costas com a capela de Nossa Senhora de Lurdes, voltada está a frontaria para requintada fonte, onde muitos cântaros de barro se encheram, onde muitas asas se deixaram, onde muitos namoros se casaram. Descermos as escadas e o rumorejar das águas conta-nos todos os segredos de quantos aí beberam. São os segredos desta terra de nobres e monásticos, ainda assim com lugar para o povo, que continua a fazer a sua feira, com cestos e cestas bastas de queijo, vindas também das localidades vizinhas.

Dos nobres reza a História e rezam as ruínas, do esquecido mosteiro, bem juntas do casario. Se ao conjunto foi já subtraído algum do seu valor, os pormenores são de excelência. Uma varandinha de esquina, os brasões, uma escadaria, as colunas em granito, um pórtico, uma janela e as paredes...Um bocadinho de estrada separa o núcleo antigo da Feira. Aí moderniza-se sobressai o novo Mercado do Queijo, valorizam-se os quinze em quinze dias. Ajudados pelos Santos, descemos para o Prado. Aqui há um forno do povo e a capela em honra de Santa Bárbara. E há o rio de Carapito e, junto dele, os moinhos.

Moinhos que ainda fazem farinha e noutros tempos fizeram muita mais para abastecerem a região. O rio, afluente do Dão, proporciona-nos aí um verdadeiro espetáculo de cor e lus. São os verdes, pincelados em diferentes tonalidades na lameira, nos juncos, nos freixos e amieiros debruçados em choro sobre as águas, é o azul do céu e o escuro dos moinhos reflectido no largo espelho. A via, silenciosa, corta os prados e segue, mais além, para outros destinos, nós viramos à direita. Passamos a ponte, damos conta de outros moinhos arruinados e, quando começamos a subir, já o rio nos fica à esquerda. Despedimo-nos com um último olhar, ainda a tempo de guardar mais uma agradável imagem do seu passar.

Quando nos voltamos para diante estamos à porta dos Valagotes. Paramos junto da “Laije” e logo ali sabemos de tudo. Noutros tempos era aqui grande animação de malhas e desfolhadas, de suor e cantigas. Era o centro cívico do lugar, cercado pelas habitações dos poucos moradores e onde se situava também o forno do povo. A modesta capela de Santo António esconde-se num cantinho, onde se juntam as estreitas e curtas ruelas, que nos podem levar a descobrir os recantos mais esquecidos, como são bonitas de ver as casas de pedras soltas, os pátios calcetados de estrume, os cabanais apinhados de lenha, para o Inverno branco que há de vir. De branco veste o novel templo dos Valagotes. Sobranceiro ao casario ergue-se um simpático edifício, obra dos braços da terra e dos dinheiros de além mar. Uma dádiva abençoada permitiu esta surpresa para o viajante. O dia continua pela serra ao encontro da sede da freguesia.

Forninhos – Não demora a descida como não demora o encontro com Nossa Senhora dos Verdes. O terreiro é largo, a ermida chama-nos. Paramos e admiramos, primeiro a paisagem pintalgada de tonalidades saídas de uma paleta de artista. Predominam os verdes dos prados, sobressaem os castanhos da terra lavrada e das árvores, aquecem os avermelhados e amarelos tons das vinhas outonais. Depois voltamos atenções para as pedras nuas do templo. O alpendre fê-lo crescer em tamanho, mas diminui-lhe a graça, no entanto, não é por isso que deixamos de estar num dos locais de maior religiosidade de todo o concelho. Aqui acorrem romeiros de muitas paragens, rogam à Senhora a proteção das suas culturas e frutos e as livres de bichos e trovoadas. Assim é e foi ao longo dos tempos, como se comprova no seu interior. Um quadro explica o milagre de 1720, em que a Virgem aplacou uma praga de gafanhotos. No tecto é diversa a iconografia dos caixotões e no altar mor a talha dourada emoldura a venerada imagem. No exterior deitamos ainda olhar a um cruzeiro, assente sobre a coluna, e dali nos vamos à povoação.

Estacionamos no Largo da Lameira e surpreendemo-nos, desde logo, com as palmeiras esguias, que crescem naquela espécie de jardins tropicais, bem guardados por gradeamento de ferro. Perto fica o Largo do poder Local. Desviamos a vista da cobertura do tanque, pois melhor nos fica observar o restauro feito em casa destinada a Turismo de Habitação e o geométrico cruzeiro vizinho. Um outro, de maiores dimensões, celebra 1640 e o edifício da Junta justifica o nome do lugar. Leva-nos esta rua ao encontro das alminhas prometidas. São singelas como os homens, escultores de arte e de vida, lembrando em cada esquina aqueles que fizeram estas terras. Procuramos a igreja, remodelada em 1797, passamos a rua do Lagar. Dizem-nos as vinhas que estamos em região demarcada de vinhos e as oliveiras que é bom o azeite da terra. Aprestamo-nos então para sair de Forninhos, lembrando que o topónimo já foi “Fornos”.

Descemos para o Dão, emoldurado por salgueiros e amieiros, que encobrem o rio e a ponte. Silenciamos perante a paciência dos pescadores dando banho ao isco. Como não estamos cá para isso, vamos andando, acompandefaulto as águas, que correm agora à nossa direita. Nas margens do rio continua a cultivar-se o que de melhor se produz no concelho, na laje da Quinta da Carriça brilha o doirado dos milhos estendidos. De guarda está o cão que não nos permite chegar perto de uma cabana das antigas, ainda coberta de giesta. Estamos a chegar a Dornelas. Na rua principal podemos estacionar e visitar de imediato a capela de santa Luzia. A imagem é pequena mas bonita, tal como as duas pinturas ao lado do altar. A rua da esquerda conduz-nos a uma curiosa fonte de chafurdo e dali seguimos à igreja. É de pequenas dimensões, por isso vos chamo a atenção para o belo cruzeiro a encimar a frontaria. O interior achamo-lo acanhado e o que mais nos desperta é o púlpito em granito assente sobre coluna e o lava-mãos. A talha dourada cobre o altar-mor, mas quem nos surpreende é a pequena imagem de Santa Bárbara, ali, aos pés de São Sebastião, padroeiro da freguesia. As aprimoradas cores das suas vestes fascinam-nos.

De regresso à rua principal procuramos as casas grandes de Coelhos e Varelas e delas transpira a importância que tiveram. Encontramos esculpidas no granito dois belos exemplares de alminhas. Dali vamos à Lage Grande comprovar a importância do Lar de Santo António, passa pela capela do santo de Lisboa e pela escola, onde há rústico cruzeiro, antes de nos irmos a Colherinhas. Perto deste lugar, da freguesia de Dornelas, encontramos a capelinha da Santa, há pouco admirada na Matriz. Ascendemos ao alto, respiramos os puros ares, soltamos as vistas e quando nos voltamos revemos, lá em baixo, tudo o que, há instantes, deixámos para trás.

A distância é curta até ao povo e, mal entrados, ali no meio das casas, à nossa direita, descobrimos duas sepulturas, feitas à medida de uma rocha, que se levanta da terra. Seriam provavelmente as mais belas de toda a viagem, se ao cimo do último campo cultivado, na estrada para a vacaria, não descobríssemos outro magnífico túmulo. Seriam motivo suficiente para passarmos por ali, mas Colherinhas tem a capela de Nossa Senhora do Ouvido ou Senhora das Neves situada junto da escola e do coreto. Reparamos agora nos terrenos que ladeiam a estrada, no regresso a Dornelas. São estes vales, rodeados de pinheiro bravo, de farta produção. Tal como o é a encosta virada ao Sol e que desce para o rio.

Na saída de Dornelas descemos à direita, por estrada nova, até às Quintas do Rio Dão. As vinhas estão, por agora, praticamente despidas, os muros suportam os socaldos e enfeitam-se de abóboras, enquanto o vale continua verde. Rebanhos e crias chegam-se ao sol na réstia da tarde. No rio não encontramos as lontras de que nos falaram, mas descobrimos um velho moinho e uma queda de água, que nos obriga a uma outra descida de valer a pena. Força e vontade não nos faltam para isto e para voltar cá acima, em rota para a Cortiçada. Grande parte desta freguesia, Cavaca e Caldas, já a visitámos num outro percurso. Para hoje ficou apenas a sede.

No largo nos detemos, olhamos o cruzeiro, com reminiscências de relógio de sol, optamos por qualquer das ruas estreitas que dali irradiam e deixamos envolver-nos pelo casario. Descobrimos casas fidalgas em declínio, casas rústicas, de bonitas varandas, fechadas há muitos anos, pátios e quintãs, a igreja, o velho freixo onde o povo ainda se junta e, em redor, uma nova povoação onde fervilha agora a vida. Numa súbita à serra rogamos a Santa Bárbara, numa descida ao vale perguntamos por São Domingos. Não achamos a capela mas, junto do casebre, repousam três sepulturas rupestres.

Avistamos Valverde, onde chegamos, em fim de viagem. Aglomeram-se de um e outro lado da estrada as primeiras e mais recentes habitações do lugar. Pela rua, que desce pela esquerda, chagamos ao centro da aldeia. Valverde é de povoamento antigo e de memórias fidalgas. Basta olhar esta praça e os edifícios que a rodeiam. Janelas e portadas renascentistas, um brasão na esquina, uma escadaria e a igreja. No interior há muito para admirar, mas é aquele retábulo de Maria e o Apóstolo, sofrendo a Crucifixão, que mais nos demora. È obra de boa Escola aquela pintura. No adro reparamos na coluna e na taça onde assenta a cruz. Não admira que o povo lhe chame pelourinho, pois as semelhanças são, por demais, evidentes. Na rua, onde admiramos o brasão, podemos encontrar alminhas e uma fonte de boa água. No entanto, interessa-nos mais a rua da Fonte.

É a famosa fonte do Corno de Boi de onde jorra a água e, logo abaixo, a bonita fonte de mergulho, com seu arco românico e conservado terraço. Encontramos cruzeiros e, na saída a Capela de Nossa Senhora de Fátima. Já no caminho para o Barracão, vê-se, à direita, a capela de Santo Antão, onde será fácil descobrir sete sepulturas escavadas na rocha, que não serviram, por certo, para enterrar os mortos da famosa Batalha de Coruche, que se estendeu por estes campos.

Daqui seguimos para Aguiar, dando por findo este Percurso e, com ele, esta viagem, que nos mostrou o passado e o presente, terras e gentes, de mãos dadas, na busca de um futuro risonho para todos os vindouros.