Percurso das Caldas

Versão para impressão

Saindo de Aguiar pela EN229 em direção a Viseu depressa alcançamos Coja, nome de terra e do rio, que daqui sai ao encontro do Dão. Passamos-lhe ao lado, para irmos, ao centro do povoado, descobrir a capela de Nossa Senhora do Rosário e algumas casas rurais de antanho, com seus pátios e escadas. Regressamos à estrada é um instante apenas, para encontramos o cruzamento para as Termas da Cavaca e para Pinheiro. Subimos pela direita, a caminho da sede de freguesia, e não teremos dúvidas em justificar tal topónimo. Os pinheiros acompanham-nos na viagem, logo que eles rareiem, sobram-nos outros motivos de interesse. Uma tradicional cabana coberta de giesta, o riacho no seu ondeante passar, as viçosas veigas e, ao levantar do olhar, a torre sineira elevando-se ao encontro dos céus.

A igreja matriz de Pinheiro, belo exemplar da arte barroca, beneficia de um belo enquadramento que possibilita ao visitante uma agradável recompensa para a sua caminhada. A sua arquitetura exterior é magnífica! Cruzeiros e alminhas pode cada um de nós encontrá-los, sem sequer os indagar, basta para isso percorrer as estreitas ruas do lugar. Descemos primeiro, subimos depois seguindo a Estrada Municipal que, pela serra, nos conduz aos demais lugares da freguesia. No cume não resistimos a uma última paragem, à procura do melhor ângulo para a derradeira fotografia.

No primeiro encontro de caminhos ficam-nos as Lameiras mesmo à mão, mas tomando a direita, vamos primeiro aos Cepos. Atrai-nos o Largo da capela da Senhora do Livramento ou São Geraldo, enquanto nos questionamos acerca do que nos traz por cá. Imaginamos procissões e romeiros vindos dos antigos concelhos de Ferreira de Aves e de Golfar. Voltando para trás encontramos então Qta das Lameiras, olhamos a Qta dos Padres e procuramos, perto da escola, o portal da entrada encimado por singular Trindade, que fica muito bem na casa de quem era. No interior, desperta-nos um relógio de sol para o passado ali vivido. Risonho parece ser o presente para a nova Quinta das Lameiras estendida ao longo da EN229. Tem destas coisas viver à beira da estrada, não podendo dizer o mesmo da Quinta dos Matos que, mais adiante, continua a viver o seu destino, partilhado entre dois concelhos, com as mais verdes vistas sobre uma das maiores manchas de pinheiro bravo da Europa. Infelizmente têm sido imensos os atentados contra este valorosíssimo património das terras de Aguiar, como podemos comprovar de qualquer dos privilegiados miradouros deste lugar.

De regresso à estrada, tomando a direção da sede do concelho, reencontramos a indicação das Caldas da Cavaca. Não hesitamos, desçamos já. Ainda mal nos embrenhámos nestas curvas verdes, depara-se-nos a placa castanha publicitando a "ponte romana". É a Ponte do Candal. Era por ali que passava a antiga via romana, vinda de Viseu. Dali, voltamos então até as anunciadas Termas.

Ao encaminharmo-nos para o abismo vai-se anunciando o "Paraíso". Um paraíso de calma, verdura e silêncio, um paraíso de águas de incalculável valor clínico. Um passeio pelos jardins, uma visita ao balneário, e a contagem dos degraus de acesso à capela da Nossa Senhora dos Remédios são, para já, o melhor remédio. Do alto desfrutamos tão rara beleza. Deu a natureza o que de melhor tinha, cabe ao Homem saber agradecer com o que de melhor ali souber, ou puder, edificar. Por agora mantêm-se as arruinadas construções, alojamentos fidalgos de outrora, que gentes de perto e de longe procuram e, dali, levaram proveitos e saudades. Se as primeiras chuvadas forem já caídas é obrigação do visitante acercar-se da cascata e tentar a fotografia mais bonita da viagem.

Deixadas para trás as águas vamos à Cavaca, situada do outro lado do morro. Trazemos nos olhos uma queda de água e já se nos oferece uma outra. Qual delas a mais bonita e fascinante! Pasmamos e passamos à outra margem do ribeiro, para melhor a vermos correr e despenhar-se, tentando ainda descobrir se funciona o rodízio do velho moinho. O canastro mais além, guarda espigas de grão doirados, que as mós esmagarão, logo que as penas do rodízio se ponham em marcha. Subimos ao povoado para admirarmos o belo cruzeiro, erguido, mesmo ali, a caminho da capela de Santo Amaro.

Retomamos depois o caminho, que mais rapidamente nos leva a Aguiar, no intuito de um curto desvio em direção a Coruche. Como sede de freguesia, que é, orgulha-se da Ponte do Candal, já visitada, e da sua matriz, de uma só nave e onde pontifica São Pedro. As sua dimensões surpreendem, trata-se da mais comprida igreja do concelho, tal como a torre sineira. A Nossa Senhora de Fátima tem sido votada enorme devoção, talvez pelo facto de ser esta localidade terra de muitos emigrantes que, desde cedo, trocaram a vida difícil das suas terras por outra com maiores proventos. Correndo por ali a ribeira da Teixugueira, restam, nas suas margens, muitos dos que foram moinhos em franca atividade. Há também alminhas e cruzeiros, mas Coruche, não contente com isso, assume-se com lugar na História de Portugal. A luta que liberais e absolutistas travaram nestes campos, em 9 de Janeiro de 1827, assim o justifica, pois a vitória dos primeiros, comandados pelo Conde de Vila Flor, foi um momento decisivo para o desfecho da guerra civil.